17 de fevereiro de 2010

Carnaval de acidentes

Por Daniel Santini
daniel.santini@folhauniversal.com.br

Patrícia Paludo tinha 21 anos e estudava psicologia quando o automóvel Gol em que estava bateu de frente em um Corsa na BR-470, no Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina. O fato aconteceu em 21 de fevereiro de 2009. Ela é uma das 262 pessoas que morreram em acidentes nas rodovias brasileiras no último Carnaval. Levantamento inédito feito pela Folha Universal com base em números da Polícia Rodoviária Federal, das polícias rodoviárias estaduais e dos departamentos estaduais de trânsito (Detrans) revela o quadro crítico nas estradas brasileiras durante o feriado. Só com os mortos do Carnaval passado, daria para encher um Boeing 787. Sem falar nos feridos, que passaram de 3,7 mil.

As vítimas tinham histórias e deixaram familiares e amigos. Um ano depois do acidente que, além da estudante, deixou mais quatro mortos e dois feridos graves, a mãe da jovem, a cabeleireira Eliana Paludo, evita falar do trauma. “A família ficou toda traumatizada. A mãe emagreceu e continua triste. Mesmo 1 ano depois, ela chora quando lembra”, conta Romano Paludo, parente de Patrícia.

“Ela era uma garota amável, amiga, simpática. Não tem nem o que falar. Eles não aceitam o que aconteceu. Quer dizer, acho que aceitam, mas não falam para não doer tanto”, diz a vizinha Patrícia Picoli. “As pessoas deveriam ter mais cuidado dirigindo, não colocar a vida dos outros em risco”, ressalta.

A imprudência, segundo a Polícia Rodoviária Federal, é a principal causa de mortes nas estradas. O Carnaval é considerado o segundo feriado mais crítico do ano em acidentes fatais, ficando atrás apenas do Natal.

Diferente do Ano Novo, em que as comemorações ocorrem principalmente nas metrópoles, o período preocupa porque há atrações em municípios pequenos. “No Carnaval ocorre grande movimentação em trechos menores. Qualquer cidade pode fazer uma festa interessante e as pessoas saem para ir a festas a 50, 80 quilômetros de distância. Depois voltam cansadas, sob efeito do álcool e com pressa de chegar”, afirma o inspetor Alexandre Castilho, coordenador nacional de comunicação da Polícia Rodoviária Federal.A maioria dos acidentes acontece no Sudeste, região que concentra o maior número de estradas e carros do País. Nem os estados com rodovias bem conservadas estão livres de tragédias. “Nas estradas mais esburacadas acontecem menos mortes. Atualmente 75% dos acidentes fatais acontecem em pistas com boas condições. O buraco é um obstáculo físico para o excesso de velocidade. Muita gente infelizmente dispensa mais atenção à roda de liga leve do que à família dentro do carro. O motorista brasileiro, pensando no risco de ter um dano material, reduz a velocidade, abaixa o som e para se concentrar pede para as crianças ficarem em silêncio. Quando encontra uma estrada bem asfaltada, acelera muito, desrespeita limites, fecha os vidros e começa a viver naquele ‘aquário’ imaginando um local só dele. Se tivesse cautela nesta situação, os números seriam diferentes”, afirma.

Segundo Castilho, o alto número de mortos e feridos, que pode se repetir ou até aumentar este ano, está diretamente relacionado ao fato de o transporte rodoviário ser o principal sistema do País. Ele critica a falta de alternativas para pessoas e cargas, tais como hidrovias e ferrovias. “O Brasil é o único país do mundo em que motoristas em carros populares dividem pistas com veículos de 60 toneladas, que têm velocidade desigual, manobram e possuem estabilidade diferente”, avalia.

O médico Guilherme Durães Rabelo, presidente da Associação Mineira de Medicina de Tráfego, também critica o modelo nacional. “Há anos deveríamos ter investido em estradas de ferro. São mais baratas, seguras e podem transportar muita gente”, defende o especialista, que diariamente cuida das vítimas de acidentes rodoviários. “No Carnaval a gente deve ter um novo recorde de acidentes. Ninguém fez nada para evitar. E as mortes não acontecem só nesse período. O ano inteiro é assim, o problema é cada vez mais grave.” O médico diz que medidas como a redução de velocidade e a educação para evitar acidentes devem ser prioridades e ressalta o prejuízo que as colisões representam. “Além das pessoas que morrem, milhares sofrem sequelas. Prevenir é muito mais barato do que tratar as vítimas. São bilhões de reais desperdiçados”, afirma Rabelo.

Segundo o Instituto Econômico de Pesquisa Aplicada (Ipea), o Brasil gasta R$ 28 bilhões por ano com acidentes, incluindo despesas hospitalares e indenizações.

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