Indústria prefere investir em remédios mais lucrativosO surto de gripe suína que vem assustando a população é mais um capítulo na triste história da saúde pública brasileira. Como é considerada uma pandemia mundial, está mobilizando as autoridades do setor apesar de o investimento não estar à altura da gravidade da doença.
A maior prova do descaso foi dada pelo próprio governo federal, que utilizou apenas 7% do orçamento liberado para combater o vírus na fase mais aguda da enfermidade. Esse tipo de atitude pode, no futuro, colocar a gripe suína no rol das chamadas doenças negligenciadas.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica como doenças negligenciadas aquelas que afetam milhares de pessoas, mas que não apresentam atrativos econômicos para o desenvolvimento de fármacos, por atingir populações de países em desenvolvimento. Ou seja, não existe interesse econômico dos laboratórios na produção de remédios ou vacinas para essas enfermidades.
No Brasil, as doenças negligenciadas mais conhecidas são a malária, doença de Chagas, dengue, tuberculose, leishmaniose e hanseníase. Segundo Pedro Lins Palmeira Filho, chefe do Departamento de Produtos Intermediários Químicos e Farmacêuticos, da Área Industrial do BNDES, as indústrias não se interessam em produzir remédios para esses males porque as maiores vítimas são pessoas com baixo poder aquisitivo e sem influência política. Por isso, pacientes e sistemas de saúde mais pobres não conseguem gerar o retorno financeiro exigido pela maior parte das empresas voltadas ao lucro. A consequência é que os medicamentos existentes para a cura dessas doenças são muito antigos e, para alguns especialistas, usar remédios ultrapassados pode ser pior do que a própria doença.
Prioridade errada
Nos países desenvolvidos, o progresso científico registrado nos últimos 30 anos gerou avanços médicos sem precedentes e elevou de forma substancial a expectativa de vida. No entanto, comunidades pobres nos países em desenvolvimento costumam ser assoladas por doenças tropicais fatais, devido, em grande parte, a falhas de mercado e de políticas públicas.
Estudos divulgados recentemente sobre o investimento mundial para combater doenças negligenciadas revelaram que menos de 5% deste financiamento foram investidos no grupo das doenças extremamente negligenciadas, como doença do sono, leishmaniose visceral e doença de Chagas. A OMS calcula que mais de 500 milhões de pessoas sejam ameaçadas por estas três enfermidades parasitárias.
Entre 1975 e 2004, apenas 21 medicamentos foram registrados para doenças tropicais e tuberculose, ainda que constituam mais de 11% da carga global de moléstias. Durante o mesmo período, 1.535 medicamentos foram registrados para outras doenças.
Gripe suína atinge todo o planeta
Há agora 160 países e territórios afetados de um total de 193, então estimamos que todos os países do mundo sejam afetados. Isso é o que é uma pandemia”, disse no dia 24 de julho, o porta-voz da OMS, Gregory Hartl. De acordo com ele, ainda não foi identificada nenhuma mudança no comportamento do vírus, mas a comunidade internacional precisa se preparar para a possibilidade de uma mutação que o torne mais letal.
A OMS diz que é necessário o desenvolvimento de uma vacina o mais rápido possível, mas adverte que não deve haver dúvidas sobre sua segurança antes que ela possa ser utilizada. Os primeiros casos reportados da doença ocorreram em março, no México, provocando temores sobre uma possível pandemia que poderia matar milhões em todo o mundo, mas até agora o vírus tem se mostrado menos letal do que se esperava.
Com centenas de milhares de casos de infecção pelo H1N1 em todo o mundo, a OMS contabiliza cerca de 2.800 mortes pela gripe suína. Apesar disso, a OMS adverte para a possibilidade de uma mutação tornar o vírus mais forte e diz que o mundo deve manter vigilância. “Os vírus da gripe são instáveis e podem sofrer mutações a qualquer hora”, diz Hartl.
No Brasil, a primeira morte ocasionada pelo vírus H1N1 foi registrada dia 28 de julho, no Nordeste. De acordo com informações da Secretaria de Saúde da Paraíba, um homem de 31 anos de idade morreu durante a manhã daquela data no Hospital Universitário de João Pessoa - por complicações decorrentes da doença. Entre 25 de abril e 16 de setembro, segundo o Ministério da Saúde, morreram 899 pessoas no País - vítimas da gripe suína.
Vacina
Atualmente, já há uma corrida para o desenvolvimento de uma vacina contra o H1N1. Em meados de julho, a Austrália realizou os primeiros testes em humanos de uma vacina contra a gripe suína. Autoridades de saúde e indústrias farmacêuticas estão tentando acelerar o desenvolvimento e a produção de uma vacina antes da chegada do inverno no hemisfério norte, quando se espera um aumento no número de casos.
Mas a OMS diz que a segurança das vacinas não deve ser comprometida pela velocidade de seu desenvolvimento, e adverte que pode levar mais tempo que o desejado para que ela esteja disponível para uso em larga escala. Em 1976, uma vacina desenvolvida para tentar conter um surto de gripe nos EUA provocou mais mortes por conta de seus efeitos colaterais do que a própria doença. Uma das maiores preocupações da OMS é o impacto que a pandemia de gripe terá sobre os países mais pobres do mundo.
Principais moléstias menosprezadas
Doença de Chagas
A doença de Chagas é causada pelo Trypanosoma cruzi, um parasita transmitido aos humanos e a outros mamíferos por insetos hematófagos, por transfusão de sangue contaminado, ou de mãe para filho, na gravidez. A doença ameaça um quarto da população da América Latina.
Doença do sono
Causada por dois protozoários, a infecção é transmitida pelas moscas tsé-tsé, que se reproduzem em áreas pantanosas. Em 1999, 45 mil casos foram reportados à Organização Mundial de Saúde (OMS), mas o número pode chegar a 500 mil.
Leishmaniose
Brasil, Bolívia e Peru contabilizam 90% de todos os casos mundiais. Os três tipos da doença são causados pelo Leishmania, um parasita microscópico transmitido pela picada de mosquitos.
Malária
A doença é causada por protozoários do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada da fêmea do mosquito Anopheles. A malária está presente em mais de 100 países e ameaça 40% da população mundial. A cada ano, 500 milhões de pessoas são infectadas.
Turberculose
Doença grave, transmitida pelo ar, que pode atingir todos os órgãos do corpo, em especial os pulmões. O microorganismo causador da doença é o bacilo de Koch, cientificamente chamado Mycobacterium tuberculosis. A disseminação acontece pelo ar. O espirro de uma pessoa infectada joga no ar cerca de dois milhões de bacilos. Pela tosse, cerca de 3,5 mil partículas são liberadas.
Hanseníase
Doença causada por um micróbio chamado bacilo de Hansen (mycobacterium leprae), que ataca normalmente a pele, os olhos e os nervos. Também conhecida como lepra, morféia, mal-de-Lázaro, mal-da-pele ou mal-do-sangue.
Não é uma doença hereditária. A forma de transmissão é pelas vias aéreas: uma pessoa infectada libera bacilo no ar e cria a possibilidade de contágio. Porém, a infecção dificilmente acontece depois de um simples encontro social. O contato deve ser íntimo e frequente.
Dengue
É uma doença infecciosa causada por um arbovírus (existem quatro tipos de vírus do dengue - 1, 2, 3 e 4), que ocorre principalmente em áreas tropicais e subtropicais do mundo, inclusive no Brasil. O dengue pode ser transmitido por duas espécies de mosquitos (Aëdes aegypti e Aëdes albopictus), que picam durante o dia, ao contrário do mosquito comum (Culex), que tem atividade durante a noite. O Aëdes aegypti também pode transmitir a febre amarela. No Brasil, estão circulado os virus 1, 2 e 3. O vírus 3 está presente desde dezembro de 2000 (foi isolado em janeiro de 2001, no Rio).
(Fonte:www.revistaplenitude.com.br/)
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